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Webkit to the people

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Eu sei que a notícia é velha, mas o Opera anunciou que chegou aos 300 milhões de usuários em todo mundo.

Muita gente brinca que o Opera é o browser que ninguém usa. De fato os números do browser para desktop são bem pequenos quando comparamos com browsers como Firefox e Chrome. Mas o que ninguém pensa com muita frequencia é que o Opera está presente em uma série de outros dispositivos além do desktop. Há pessoas que dizem que o Opera nunca teve como foco principal os desktops. Eu não concordo. Mesmo assim, ele está presente em dispositivos como TVs, set-top-box e até em caminhões. Ou pelo menos estava.

Junto com a notícia dos 300 milhões de usuários, eles anunciaram que iniciarão uma transição de substituição do seu engine de renderização. Eles deixarão o Presto de lado e passarão a usar o WebKit! Yeah! 😉

Na verdade não é tão Yeah! assim. Existem prós e contras. Pra ser sincero eu ainda não decidi se isso é bom ou ruim. O assunto é mais “profundo” do que se imagina. É tão profundo que há pessoas como o Tim Berners-Lee contra vários browsers utilizarem o mesmo motor de renderização.

Web aberta

A web foi criada para ser aberta. Para termos realmente o direito de ir e vir. A internet é neutra. Isso quer dizer que todas as informações que trafegam na web devem ser tratadas igualmente. Nada de bloqueios ou restrições de acesso a informação, seja ela qual for. Você deve ter o direito de acessar da forma que quiser qualquer informação disponibilizada na web. É por isso que todas as iniciativas de controlar o que e como consumimos conteúdo na web não foram adiante. A web não é de ninguém, mas é de todo mundo ao mesmo tempo.

Isso é importante por um simples motivo: informação acessível. Toda informação que é publicada na web deve ser utilizada e reutilizada por qualquer um, quantas vezes quiser. O Google e outros sistemas de busca faz isso o tempo todo no seu buscador. Você faz isso quando twitta, quando posta no Facebook ou quando manda um simples artigo por email.

Admittedly, this news would have been considerably more worrying had Microsoft or Mozilla adopted Webkit. We still have three major HTML5 engines but the browser world has lost a little of its color today. Craig Buckler

O W3C tem lutado para que empresas e governos mantenham seus dados abertos e acessíveis. O Tim Berners-Lee, quando veio para a Campus Party aqui no Brasil em 2011, falou um pouco sobre este assunto.

Há governos e empresas que estão tentando controlar as informações ou cobrar por elas. É importante que todos nós lutemos para que a rede continue aberta e livre.

Para citar um exemplo besta: quem nunca entrou em algum website de notícias onde você não pode clicar com o botão direito por que ele é travado por um script? Uma decisão tão estúpida que chega a ser hilário.

Claro que não estamos dizendo aqui que toda e qualquer informação deva ser publicada para o uso de qualquer um. Se você já estudou sobre Web Semântica, deve saber que existe um termo utilizado chamado Provenance, que define de onde vem os dados e o que pode ser feito com eles. Os padrões da Web Semântica determina como você pode manipular esses dados e quais são seus direitos de acesso.

Tanto a utilização quanto a publicação de dados na internet deve ser feita com responsabilidade. Embora a internet seja um ambiente de livre acesso, ninguém quer que dados importantes da sua vida estejam livres para qualquer um manipular da maneira que bem entender.

Mas para que a web seja livre de verdade, a internet não pode ser controlada, de forma nenhuma, apenas por uma empresas, órgão, pessoa etc etc etc. Na época da guerra dos browsers esse cenário era muito clara: se uma empresa fizesse um browser que fosse muito utilizado, ela poderia ter possibilidade de tentar e até conseguir, controlar o que os usuários desse browser acessassem. Era isso que a Microsoft pensava, pelo menos. Eles viram que se a Netscape ganhasse a tal guerra, eles teriam muito “poder” nas mãos.

A mesma ideia pode se aplicar agora se todos os browsers decidirem migrar para o WebKit. Praticamente quem decidirá quais novidades dos padrões web devem ser implementados agora, será o grupo que cuida do WebKit e não os fabricantes browsers.

O desenvolvedor Robert O’Callahan disse por que a adoção em massa do WebKit pelos browsers pode não ser uma boa coisa:

some people are wondering whether engine diversity really matters. “Webkit is open source so if everyone worked together on it and shipped it, would that be so bad?” Yes. Web standards would lose all significance and standards processes would be superseded by Webkit project decisions and politics. Webkit bugs would become the standard: there would be no way for developers to test on multiple engines to determine whether an unexpected behavior is a bug or intended.

Olha só o que o Tim Berners-Lee retuitou estes dias:

Não estou dizendo que ter todos os browsers sob um mesmo motor de renderização não iria melhorar nossas vidas, por que sem dúvida, iria. O problema é que isso não é bom para web, entende? Embora seus problemas de compatibilidade entre browsers diminuiriam para quase zero, a web não iria ter a liberdade que ela merece.

imagina se uma empresa que tem dinheiro infinito (posso pensar em pelo menos duas, uma delas tem um sistema de busca e a outra iniciou o projeto do Webkit), coloca centenas de desenvolvedores para “ajudar” a desenvolver o Webkit. Será, será mesmo, que uma empresa dessas estaria fazendo isso só para ajudar todo mundo? Don’t be evil my ass, alguns diriam.

Tem pessoas que pensam que a monocultura de motores de renderização não é uma má ideia e defendem que os browsers não competem entre si apenas pela quantidade de padrões que cada um suporta. E eu concordo. Hoje em dia a experiência que o usuário tem com a interface de cada browser pode ser definitiva para a escolha. Há outros aspectos de decisão que podem ser explorados com mais vigor, como por exemplo a forma com que o browser gerencia suas senhas e contas ou como ele sincroniza seu perfil entre os dispositivos, gerenciamento de bookmarks ou sincronização com serviços e redes sociais. Há estes e vários outros campos onde os browsers podem competir e que talvez seriam mais interessantes para os usuários.

Eu mesmo já me peguei várias vezes desejando que todos os browsers tivessem o mesmo motor de renderização só por causa de um ou outro problema na hora do desenvolvimento. Imagina só, não precisaríamos nos preocupar em utilizar prefixos de browsers (esta é outra guerra). Também atingiríamos um número maior de browsers com um mesmo código, já que Chrome, Opera, Safari e suas respectivas versões mobiles estariam sob o mesmo motor de renderização. Sem falar em mobiles como Blackberry.

Essa história ainda vai dar o que falar quando o Opera anunciar sua primeira versão com Webkit. Qual é a sua opinião?

Publicado no dia