Canivetes na web

Durante muito tempo as agências web achavam que o desenvolvedor deveria ser uma espécie de canivete suiço.

por Diego Eis 03/02/2009 Comentários

Eu nunca tive um canivete suiço. Lembro-me que meu tio tinha um, daqueles tradicionais, com cabo vermelho, abridor de rolhas e latas, chave de fenda, lima e tudo quanto mais tinha direito. Sem dúvida uma ferramenta útil em horas de aperto e imprevistos. Mesmo assim, eu nunca vi ninguém preferir a faca que vem no canivete em vez de utilizar uma faca normal. O motivo é óbvio: uma faca normal tem uma série de características que o canivete, por contemplar tantas ferramentas em um mesmo lugar, não poderá ter nunca. É muito mais confortável utilizar a faca, ela é mais ergonomica e afiada. Ela desempenha bem o seu trabalho porque ela foi criada, especificamente para cortar.

Durante muito tempo agencias web achavam que o desenvolvedor deveria ser uma espécie de canivete suiço. Lembro-me que haviam empresas que procuravam designers que soubessem duas ou três linguagens server-side e programadores que entendessem bem de photoshop, fireworks e illustrator. Pague o salário de um e leve dois. Contudo, também haviam profissionais que achavam que ele deveria ter exatamente este perfil. Talvez por pressão do mercado ou até mesmo porque ninguém entendia direito esse negócio de web.

Era “chic” você dizer que sabia um pouco de tudo. Mas o tempo mostrou que quem sabe um pouco de tudo na verdade sabe muito de nada. Há problemas que apenas um especialista, acostumado com as peculiaridades de um certo ambiente, pode resolver com maestria. Há coisas que só a faca pode cortar.

Felizmente o mundo girou e a web mudou. Hoje é mais comum encontrarmos empresas que separam os processos. Paga-se mais para ter uma equipe de desenvolvimento web hoje em dia. No lugar daquele profissional meio ou quase nada especialista, você terá uma pessoa focada, concentrada em apenas um tipo de tarefa e está acostumado com essa atividade.

O processo de desenvolvimento web vem sendo modificado durante anos. No começo do desenvolvimento de sites e sistemas para internet eram planejados baseando-se em papel. Passava-se muito tempo planejando um sistema antes de faze-lo. O cliente demorava para ganhar algo de valor e a equipe ficava ocupada prevendo quanto tempo levariam para desenvolver as etapas.

O processo de desenvolvimento também era linear. Geralmente acontecia de a equipe receber o briefing do cliente, que depois era passado para o designer, que faria o layout no Photoshop ou qualquer outro sistema visual. Depois de já desenhado, ele preparia o HTML, normalmente utilizando um editor WYSIWYG. O programador por sua vez, com o código HTML na mão programaria todo o site ou sistema.

Essa forma linear de desenvolver sistemas é algo aterrorizante, traz muitos problemas de manutenção e retrabalho. Se o cliente requisitasse alguma mudança no desenho do layout, o designer teria que refazer todo o HTML que por sua vez seria reprogramado novamente pelo programador. As partes: programação, design e client-side eram totalmente dependentes uma das outras. Uma forma antiga e nada produtiva de se desenvolver.

Com a era dos Padrões Web isso tudo ajudou a mudar. A equipe já havia sido basicamente modificada. Agora, em vez de uma pessoa para fazer design, client-side e server-side, há pelo menos 3 profissionais: um para fazer o design, outro para estruturar o HTML e por fim o programador com o server-side. Essa partes são independentes. Se o cliente mudar de idéia em relação ao design do site, o HTML não precisará ser modificado, logo o programador não precisará reprogramar o site. Será trabalho apenas para o Designer, que terá que refazer o layout e criar um novo CSS. É trabalho para apenas uma pessoa. O resto da equipe poderá se ocupar com outras tarefas.

O caso acima só terá sucesso se em cada uma fases do desenvolvimento houver um especialista por trás. Um “coringa” não conseguiria ser tão ágil porque ele não domina todas as áreas.

Toda essa história também muda a cara do mercado. Profissionais são mais valorizados pelo seu conhecimento, sua experiência e especialização. Os profissionais se tornam mais dedicados com o processo e ganham uma visão muito maior de todo o projeto.