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Não se esqueça: você é um comunicador

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Se você já está há alguns anos na profissão de fazer websites, provavelmente percebeu que o cerne do seu trabalho é a comunicação, não necessariamente a tecnologia.

Mas, espere aí? Por definição, tecnologia não é comunicação? Isso não é completamente óbvio?

Vamos com calma. Refiro-me, especialmente, à comunicação interpessoal, em sua forma escrita ou presencial.

Agora questione: quantas vezes você já pensou em si mesmo como um comunicador? Ou melhor: como alguém cuja principal tarefa é ser compreensível?

Explico:

  1. Direta e indiretamente, passamos muito tempo estabelecendo acordos com clientes, gerenciando relações com colegas de trabalho e estilos de chefias.

  2. Também precisamos escrever, ler e entender corretamente certas documentações.

  3. Exercemos a cidadania em ambientes coletivos on-line como Stack Overflow, GitHub etc. Temos que aprender a perguntar, procurar, responder, criticar, aceitar críticas. Tudo isso limitados e potencializados por certas interfaces e códigos de comportamento1.

  4. Nosso código, em si, também precisa ser limpo e bem comentado. Usamos técnicas como Object-oriented programming, entre outras, para nos tornarmos compreensíveis entre colegas de trabalho. E inteligíveis / flexíveis / responsáveis ao longo do tempo2.

  5. O próprio código é comunicação. Com computadores e com pessoas, claro. É por isso que você vai encontrar parágrafos como esse, escrito por Marco Arment, o criador do Instapaper, sobre a nova linguagem da Apple, a Swift:

    Código mais simples é ótimo, mas menos código que não é, na verdade, mais simples, não necessariamente ajuda — é só mais difícil de ler, de aprender e mais difícil de enxergar erros. A maioria dos exemplos que vi do Swift não é muito mais simples que seus equivalentes de Objective-C — apenas mais concisa.

  6. Com a popularização da internet, temos que aprender a lidar com mais diversidade. De repente, questões como gêneros (especialmente como se comunicar adequadamente com mulheres), classes sociais, nacionalidades, identidades sexuais, tudo isso acaba se tornando mais visível e urgente no ambiente de trabalho (on e off-line).

Eu poderia ir muito mais além nesses itens. Mas poucos teriam saco de lê-los. O que eu quero deixar muito claro é a ideia de que a profissão de produzir sites é 100% comunicação, em diversos níveis. Isso não é um detalhe. Não é uma responsabilidade para outros.

Portanto, em vez de nos preocuparmos apenas em aprender novas tecnologias, novos frameworks etc, ajudaria imensamente aprender a flexibilizar nossa comunicação. Ou melhor: estudar comunicação. Pelo menos nos abrirmos para o fato de que somos comunicadores.

Muitos de nós somos autodidatas, aprendemos na raça — ao custo de habilidades sociais — e perdemos uma noção mais ampla da nossa profissão.

Outros, por terem feito faculdade de comunicação, tendem a desprezar o assunto. Pensam na comunicação apenas como uma disciplina acadêmica ou uma espécie de gaveta, na qual, por exemplo, o design está incluído.

Mas comunicação é o objetivo do nosso trabalho. E o meio pelo qual ele se realiza.

Eu preciso me lembrar disso de vez em quando, você não?


  1. Por exemplo, no Stack Overflow, posts agradecendo por respostas são considerados ruído de comunicação e, às vezes, filtrados pelo próprio sistema. O que não significa que as pessoas sejam necessariamente rudes.

  2. E isso poderia ser chamado de Ecologia da Programação. Quer dizer: a maneira pela qual os códigos (de Ruby a CSS, com suas funções específicas) lidam com o ambiente. Que resíduos eles produzem, que transformações induzem na web etc. E também Economia da Programação: o mercado, as modas e as flutuações no valor de certas linguagens.

Publicado no dia